Ao contrário do que diz na música, o tempo pra mim não passa...
Dia 22 fui fazer o usg morfológico. Estava super apreensiva e torcendo muito para que pudéssemos constatar que foi apenas uma impressão e que não tem onfalocele nenhuma. Acordei cedo, me arrumei e ao entrar no carro perguntei pela carteira. O Rafael não sabia onde estava. Saiu pra procurar, revirou a casa mas não achou. Liguei pra remar para o dia seguinte. Mas estava muito chateada. Muito mesmo... Então liguei pra minha mãe pra ver se ela conseguia mandar o dinheiro pra caixa econômica. Assim eu conseguiria usar o cartão da caixa, já que o do bradesco, onde tinha o dinheiro do exame, estava no raio da carteira sumida. Nesse meio tempo eu vi que o pneu do carro estava furado... Minha mãe sugeriu que a gente passasse lá e pegasse o cartão dela, mas como? Teria que ir no borracheiro, já que o estepe tbm estava furado... Enfim, minha mãe veio pra casa e fui com o carro dela. Parecia que não era pra ir mesmo... Afffff
Chegando lá, aguardei por um tempão. Muito nervosa. Porém quando o médico chegou e nos viu e viu o exame anterior, ele disse que preferia fazer o morfológico com 13 semanas e não com 12, pois conseguiríamos visualizar melhor tudo. Mas como eu já estava lá, faria um usg só pra nós vermos o bebê. Olhamos o bebê que se mexia bastante. Mas lá continuava a suspeita de onfalocele. Por um ângulo parecia até gastrosquise. Mas assim como na semana anterior, por outro ângulo lá estava a barriguinha perfeitamente lisa. Mas de perfil, um grande volume no abdômen... Com o doppler algo mais estranho: circulação sangüínea no grande volume, o que fez ele suspeitar que talvez fosse um nó verdadeiro, visto que não saiu do lugar por uma semana.
Enfim ele disse que na próxima semana avaliaria riscos de trissomias, já que onfalocele ou gastrosquise pode estar associada a alguma trissomia. Ainda foi olhar algo nas perninhas, mas viu apenas perninhas se movimentando normalmente. Foi olhar algo nas mãozinhas e parece que encontrou mãozinhas perfeitas... Mas...
Pra mim, bastou pra acabar com meu dia. Pensar em estar gerando um bebê com onfalocele ou gastrosquise já é dolorido pra mim, pois sei que ele necessitará de cuidados imediatos quando nascer. Vai ser afastado de mim e provavelmente, sem grana e morando em feira, não poderei nem dar um nascimento digno pra ele. Isso pra mim já é dolorido. Mas pensar que ele pode ter uma trissomia grave, que é incompatível com a vida é como me matar aos poucos. Se houver suspeita de down eu não me importo nem um pouco. Pra mim não há problema algum. Mas e se for outra suspeita? Isso está acabando comigo. Não tenho forças pra lidar com isso. Não sinto mais alegria nenhuma com a gestação. Meus enjôos voltaram, o que prova que está ligado ao emocional. Tem momentos que sinto raiva. Tem hora que me pego pensando que poderia perder logo esse bebê. E então sofro por esse pensamento, pois não temos absolutamente nada confirmado. Mas e se for confirmado algo incompatível com a vida? Como vou lidar com isso? Como vou carregar um bebê que não poderei ter comigo? O que direi pros meus filhos? Como explicarei pra eles? E sinto raiva de novo. Raiva do bebê que morreu, raiva do bebê que ficou, raiva de mim por ter raiva do bebê sem ter nada confirmado...
Quando soube da gravidez gemelar fiz tantos planos... Imaginava dois bebês no meu colo, dois bebês dormindo comigo, dois bebês um ao lado do outro, dois bebês o tempo todo. Quando um se foi, nada mais eu consigo imaginar. Não consigo imaginar esse bebê no meu colo, não consigo imaginar ele na minha vida. Não que eu não o deseje, mas acho que meu cérebro criou um bloqueio. A única coisa que imagino é que é um menino. Mas nada mais... Hoje Rebeca veio até mim e espontaneamente deu um beijo na minha barriga e disse: te amo, nenê! Achei tão lindo e ao mesmo tempo me deu uma dor profunda.
Estou sofrendo muito e não quero demonstrar, não quero falar, não quero que ninguém saiba. Comentei com o Rafael que não sabe o que fazer nem o que dizer pra me ajudar. Chorei, desabafei. E ele disse que preciso confiar mais. E nesse dia, durante o banho, vi minha tatuagem: determinação e confiança. Onde foi parar minha confiança! Onde foi???
Longos cinco dias pela frente até o novo exame. Mais detalhado, com 3D. E então meu sofrimento terá fim. Ou estará apenas começando...